O Brasil em guerra no trânsito

Carros parados em uma das principais vias de Brasília

O trânsito brasileiro produz anualmente números superiores aos de nações em guerra. Em média, 45 mil pessoas perdem a vida em acidentes nas vias públicas brasileiras – sejam elas urbanas ou rodoviárias. A tragédia é bem pior quando se observa o número de vítimas com seqüelas: 250 mil ficam parcialmente inutilizadas. Esta carnificina gera prejuízos para toda a sociedade, principalmente, a empresas que perdem clientes, colaboradores e negócios.

Para tentar alertar a sociedade para a gravidade do problema, o Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) reforça a campanha “Maio Amarelo”, com apoio de várias empresas e entidades, entre elas a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), em 2015. Com o laço amarelo como símbolo, o movimento busca a conscientização por meio da informação.

“Todos nós perdemos com os acidentes”, afirma José Aurélio Ramalho, diretor presidente do ONSV, entidade sem fins lucrativos. “Além do prejuízo financeiro, há um custo emocional imenso, cujo valor geralmente não é dimensionado. Um acidente de trânsito absorve uma cadeia de socorro muito grande, afetando a produtividade das várias pessoas envolvidas emocionalmente com a vítima”, diz.

Além do custo emocional da perda do colaborador – temporária ou definitiva -, sobre a empresa podem acarretar ainda conseqüências como atrasos, mercadorias não entregues e perda de vendas. A conta também inclui gastos hospitalares, despesas com substituição de mão de obra, além do dano ao patrimônio.

logotipo campanha maio amarelo

“A sociedade trata o acidente com uma fatalidade”, afirmou Ramalho. “Mas o acidente de transito não é uma fatalidade. Pode ser evitado, se a questão da segurança for levada mais a sério.” Para o especialista, na maioria das vezes falta consciência aos cidadãos e preparo profissional a motoristas para se evitar exposição ao risco.

A Organização Não-Governamental ONSV foi criada para dar suporte as autoridades e gerar informações à sociedade, que ainda não tem conscientização clara de como sofrer menos com os acidentes de trânsito. Há formas de minimizar as perdas. Treinamento, regras e punições são caminhos para o Brasil atingir índices mais civilizados no trânsito.

Segundo o especialista, a epidemia dos acidentes que afeta a produtividade brasileira também tem um alto índice no período não-laboral.  “O sujeito que está no período de lazer também está sujeito ao acidente de trânsito – que já é uma das cinco principais causas de morte no mundo. Ao colocar o pé na calçada, todos nós já estamos sujeitos a sermos vítimas de um acidente.”

Para Ramalho, conclui-se que no Brasil 95% das causas de acidentes envolvem fatores humanos. “Sabendo de pontos críticos, cabe a nos como motoristas reduzir a velocidade numa rodovia ruim. Curva da morte, do diabo, da sogra, a gente já sabe o que vai acontecer. É preciso aprender a pensar preventivamente”, afirma.

Entre as principais causas de acidente ao volante estão sonolência, embriaguez, alta velocidade e o uso do telefone celular. Segundo dados do Observatório, discar um número no celular a uma velocidade de 100 km/h representa dirigir sem nenhuma visão por 140 metros. O motorista perde 37% da atividade cerebral ligada à direção durante uma ligação.

Uma colisão a 80 km/h por hora tem efeito igual a uma queda de um edifício de 20 andares. A cada 5 km/h acima do limite de velocidade, dobra-se o risco da fatalidade. O álcool reduz em até 25% o tempo de reação do motorista em uma situação de risco. O sono provoca até 50% dos acidentes em rodovias.

Números do ONSV indicam que o Brasil gasta R$ 40 bilhões com acidentes de trânsito. Em 2013 (último dado), apenas com vítimas que ficaram com seqüelas, os gastos com internações, seguridade social e outros benefícios somaram R$ 12 bilhões. “O acidente do transito está banalizado no Brasil”, reforça Ramalho.

Enquanto a população brasileira cresceu 14% entre 2003 e 2013, a frota de veículos do país – caminhões, carros, motos e ônibus – aumentou 125% no mesmo período. Só a de motocicletas cresceu 350% no mesmo período sem o devido preparo dos condutores. Em regiões mais afastadas do país, os motociclistas não têm nem carteira de motorista. A cada quatro acidentes, três são com motos.

A conseqüência é traduzida em números de verdadeiras catástrofes. As 45 mil mortes que o Brasil registra por ano equivalem à ocorrência de cinco tsunamis por ano, ou seja, um dos fenômenos mais devastador da natureza, que deixa em média 11 mil mortos em países que sofrem com ondas gigantes do mar. O número é tão preocupante que 89,6% dos municípios brasileiros não têm uma população de 45 mil moradores.

Para o Observatório, os brasileiros vão para uma guerra todos os dias quando saem de casa para trabalhar ou para o lazer. Segundo as estatísticas, 60% dos mortos são homens de 18 a 44 anos. “Com base nesses números dá para entender porque muitas transportadoras não encontram motoristas. É porque uma parte considerável deles está morrendo nas estradas e avenidas”, reforça o presidente do Observatório.

As estatísticas desmentem muitas informações que se acreditavam verdadeiras. “A maioria dos acidentes não acontecem em curvas, mas sim em retas”, afirma. Segundo o ONSV, 66% dos acidentes em período chuvoso acontecem em retas. Outro dado é que 81% das ocorrências são registradas em trechos bem pavimentados.

O Observatório desenvolveu um plano de segurança empresarial/ corporativa com o objetivo de fornecer informações para a melhor educação das pessoas que convivem com frotas. A entidade elabora as informações com base em dados técnico-científicos para tomada de decisão por parte das companhias, que têm orientação para a implantação de medidas efetivas na redução de acidentes no seu quadro de pessoal.

Outro projeto é o Sistema de Observação Monitoramento e Ação (Soma), desenvolvido pelos técnicos do Observatório. O Soma compila uma série de dados de bases públicas e privadas para entender onde os acidentes de trânsito acontecem em trajetos entre a casa e o trabalho ou em períodos de lazer.

Ramalho cita como trabalho educativo o método de informar motoristas de maneira lúdica e simples sobre o risco de acidentes. O trabalho, segundo ele, tem sido bastante prestigiado por empresas, governos e entidades preocupadas com a questão da segurança social. “Atuamos totalmente sem fins lucrativos”, diz.

O Observatório ajudou na elaboração da Lei Seca. “Colaboramos diretamente para este projeto, que foi pensado por nós com base na experiência de outros países, como o Japão. Ainda queremos que a pessoas que acompanham um motorista embriagado também sejam responsabilizadas por formação de quadrilha. Assim, você coloca a sociedade para vigiar a pessoa antes que ele cometa um crime”, afirma.

Outra medida é sugerir que placas de trânsito sejam refletivas para que os motoristas tenham melhor visualização no período da noite. Para a entidade, muitos acidentes ocorrem porque condutores não enxergam a sinalização devidamente.  “Além de divulgar para a sociedade conteúdos visando a formação de opinião, a entidade busca a mudança de comportamento do cidadão no trânsito”, diz Ramalho.

Para propagar suas informações, a ONSV desenvolve treinamentos por meio de e-learning, emite boletins de rádio, realiza palestras e eventos e a ajuda a formar observatórios municipais para colhimento de dados. A entidade também desenvolve trabalhos para empresas. Estão entre seus clientes, a Ticket Car, Ambev, Michelin, Votorantin e Banco do Brasil.


 

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