Brasília recebe primeiro ônibus 100% elétrico

O veículo com chassi da BYD e carroceria da Marcopolo não emite poluentes e, até o final do ano, mais ônibus 100% elétricos serão incorporados à frota da capital federal

 

O governo de Brasília apresentou o ônibus totalmente elétrico movido à bateria, composto pelo chassi BYD modelo D9W e montado com carroceria Marcopolo Torino. O lançamento ocorreu durante a abertura do Fórum Mundial da Água. O veículo vai operar na linha 110, da Universidade de Brasília (UnB), e será usado a partir de abril, segundo a secretaria de Mobilidade. De acordo com a BYD, cada ônibus elétrico reduz em aproximadamente 1,8 tonelada a emissão de gás carbônico (CO²), o equivalente ao plantio de 11 árvores, além de evitar a emissão local de 118,8 quilos de dióxido de nitrogênio (NOx) e 1,1 quilo de material particulado. “É importante ressaltar que o veículo irá operar em uma linha regular, servindo a população”, diz Fábio Damasceno, secretário de Mobilidade de Brasília.

A frota brasiliense é formada por 2,7 mil veículos (três mil se levarmos em conta as cooperativas) e transporta 1,2 milhão de pessoas por dia. “A idade média da frota é de 3,5 a quatro anos, a menor do país. A renovação da frota visa à sustentabilidade no transporte. Temos nove ônibus que usam o biodiesel B-20, e todos os 2,7 mil estão aptos a rodar com o combustível. E agora trazemos o ônibus elétrico, com emissão zero de poluentes”, informa Damasceno. Já o B-20 emite menos gases do efeito estufa. O uso dos nove carros, ao longo de um ano, equivale ao plantio de 1,2 mil árvores, no que se refere à redução de dióxido de carbono (CO²).

O ônibus faz parte da frota da Viação Piracicabana, que já encomendou um segundo modelo elétrico que deverá estar circulando pelo Distrito Federal até o final do ano. “Estamos sempre em busca de novas tecnologias, em sintonia com as tendências mundiais no uso de diferentes formas de energia mais limpa. Contamos também com ônibus movidos a biodiesel (B-20)”, ressalta Fausto Mansur, diretor geral da empresa. Mansur informa que o investimento em um modelo elétrico é alto. “A vantagem é que os modelos elétricos têm vida útil mais longa, de dez anos, o que diminui essa diferença. E não há os gastos com diesel, mas, ainda assim, é um investimento maior”, diz.

INCENTIVOS – Pelas atuais regras, a idade máxima dos ônibus que circulam em Brasília deve ser de sete anos. De acordo com Damasceno, o fato de os ônibus elétricos apresentarem vida útil mais longa que os movidos a combustíveis fósseis pode levar a uma modificação na regra de exigência de idade máxima. ”O ônibus elétrico tem uma durabilidade maior, justamente por causa dos seus componentes, que sofrem menos desgaste. Vamos fazer uma mudança na legislação, para incentivar que as empresas adquiram ônibus desse modelo”, afirma.

O governador Rodrigo Rollemberg informa que pode haver um tipo de incentivo fiscal, provavelmente no ICMS (imposto sobre circulação de mercadorias e prestações de serviços), para estimular o uso da energia elétrica no transporte coletivo do Distrito Federal, assim como existe para o biodiesel. “Nós estamos caminhando a passos largos para uma mobilidade sustentável. Brasília é uma cidade que já tem no transporte coletivo a utilização de biodiesel em uma escala bastante razoável e que queremos ampliar. Queremos e vamos fazer o que for possível para ampliar a frota de ônibus elétricos”, declara.

E o Distrito Federal vai ampliar a frota elétrica ainda mais. A Sociedade de Transportes Coletivos de Brasília (TCB), empresa pública de economia mista de Brasília, informa que irá adquirir seis ônibus elétricos para operar no sistema. O presidente da companhia, André Brandão, diz que a compra será por meio de licitação. O edital deve ser publicado até o final do mês.

Segundo o vice-presidente de vendas da BYD do Brasil, Vagner Rigon, o ônibus elétrico entregue em Brasília foi produzido na fábrica em Campinas, no interior paulista, e será o primeiro desse modelo em operação comercial no Brasil. O BYD D9W é um chassi de piso baixo com aplicação em carrocerias com até 13,2 metros de comprimento, sendo o modelo de chassi elétrico mais vendido no mundo. O veículo tem autonomia operacional de até 300 quilômetros, emissão zero de poluentes e redução significativa de ruído. “O ônibus conta com ar-condicionado, acessibilidade (ajoelhamento) e, por ser mais alto, possibilita boa circulação interna de ar”, diz.

O tempo para recarregar a bateria é de quatro horas. Os freios regenerativos aumentam a autonomia do veículo, já que o modelo utiliza a energia cinética, poupando a bateria sempre que o motorista frear ou reduzir a velocidade do ônibus. O equipamento reduz o consumo de energia, mesmo utilizando o ar-condicionado. Segundo Rigon, a refrigeração no ônibus elétrico consome apenas de 6% a 7% de energia e, no caso do diesel, pode chegar até 20% do combustível.

Rigon observa que a tecnologia desenvolvida para veículos elétricos tem evoluído bastante. “Notamos um aumento da densidade energética das baterias, o que proporciona mais autonomia e mais potência. As baterias também ficam cada vez mais leves, o que melhora o desempenho do veículo”, explica. Além dos dois ônibus elétricos da marca que, em breve, passarão a circular em Brasília, já existem 13 unidades na frota de Campinas, dois em Bauru, um em Santos e outro em São Paulo. “Estes ônibus já estão rodando. Mas temos outros pedidos para várias cidades, como São Paulo e Volta Redonda”, informa.

Atualmente, há 14 mil ônibus elétricos nas ruas de Shenzhen, na China, sendo que a empresa é a responsável por cerca de 80% dos ônibus da frota. A cidade começou a testar seus modelos elétricos há seis anos. “Para que seja expandida a venda de elétricos no Brasil, é necessário que haja iniciativas do poder público para estimular as empresas a adquirirem veículos com essa tecnologia. A mudança na lei, aumentando a idade máxima dos elétricos, ajuda bastante. A isenção do ICMS, que já existe para os ônibus movidos a biodiesel em Brasília, seria muito importante. Vamos atuar junto ao poder público para que isso se concretize”, diz Rigon. Outra medida importante, na opinião de Rigon, é o financiamento com prazos mais longos.

A BYD foi fundada em 1995 e rapidamente se tornou uma das principais fabricantes mundial em baterias recarregáveis, sistemas de armazenamento de energia, ônibus e caminhões elétricos. A empresa está presente em 50 países e em cerca de 200 cidades. No Brasil, em 2015 abriu sua primeira fábrica para produção de ônibus elétricos e comercialização de veículos e empilhadeiras em Campinas. Em abril de 2017, inaugurou sua planta de produção de módulos fotovoltaicos.

NOVIDADES – O ônibus elétrico transportou delegações estrangeiras durante o Fórum Mundial da Água e depois retornou para a fábrica da Marcopolo para a homologação da carroceria. A previsão é de que o veículo comece a operar na linha regular em abril. Na abertura do evento, a secretaria de Mobilidade do Distrito Federal também anunciou o cartão +Turista. Com o bilhete, o turista pode fazer integrações nos modais de transporte de Brasília, retirando o cartão e recarregando R$ 20.

Recentemente, foi implantado o sistema de bilhete único em Brasília, que permite a integração entre os modais existentes dentro de três horas, por uma tarifa de R$ 5. Os bilhetes para os turistas poderão ser adquiridos em guichês que serão instalados em locais estratégicos espalhados pelo Distrito Federal, como no aeroporto e na rodoviária. “Em breve lançaremos também um cartão multifuncional para uso no transporte público e como cartão de débito, em parceria com a Mastercard e o Banco de Brasília (BRB)”, informa.

Outra novidade do sistema de transporte público de Brasília é a ampliação do compartilhamento de bicicletas. Atualmente, são 450 unidades e 45 estações para que a população possa utilizar o meio de transporte. O novo patrocinador do projeto de incentivo ao uso de bicicletas é a Mastercard, com apoio do Banco de Brasília. Segundo Damasceno, serão construídas mais duas estações convencionais e duas para crianças (bike kids), chegando a 49 estações de compartilhamento de bicicletas. “Quando tínhamos 40 estações, eram 15 mil viagens por mês. Quando instalamos cinco estações perto da Universidade de Brasília, esse número passou a 30 mil viagens por mês”, contabiliza.

A Serttel é empresa responsável pela fabricação das bicicletas, das estações, além do software e hardware envolvidos no projeto. O aplicativo +Bike permite ao usuário localizar as estações com equipamentos disponíveis e fazer a reserva. Segundo Rivaldave Vasconcelos, diretor da Serttel, explica que a empresa desenvolve a tecnologia desde a concepção inicial até a implantação do projeto, que teve início no Rio de Janeiro. “Quando a gente colocou a bicicleta compartilhada no Rio, foi uma forma de provocar os entes públicos, privados e a própria população sobre a importância bicicleta como modal. As outras capitais começaram a querer participar, a demanda é muito grande e a iniciativa privada percebeu a importância e faz parte disso”, diz.

De acordo com o diretor de transportes sustentáveis da Serttel, Eduardo Henrique de Melo Lima, o sistema está sendo utilizado em nove localidades, incluindo Argentina e México. No Brasil, o compartilhamento de bicicletas está funcionando em Vitória, Aracajú, Brasília, Fortaleza e Santos. “A bicicleta é adaptada para o sistema de compartilhamento. É leve, com quadro totalmente em alumínio, com selim anatômico, câmbio de três marchas, espelho retrovisor, campainhas, proteções antivandalismo e um pino para travar na estação.”

Para poder utilizar esse modal de transporte, é preciso pagar R$ 10 por ano no cartão de crédito. O passe mensal custa R$ 6 e o passe diário tem um valor de R$ 3, válido por 24 horas. “O importante destacar que o uso da bicicleta deve estar integrado ao transporte público, sendo considerado o quarto modal do sistema. É importante que a população comece a planejar suas viagens utilizando ônibus, BRT, metrô, bicicleta e até as caminhadas. Esse é o novo conceito de mobilidade urbana integrada”, afirma Damasceno.

As iniciativas – do lançamento do ônibus elétrico, do cartão para os turistas e da ampliação do compartilhamento das bicicletas – fazem parte do Circula Brasília, um programa de mobilidade urbana do poder executivo. Por enquanto, as taxas para uso das bicicletas não podem ser feitas pelo cartão de transporte. “Temos investido na melhoria do transporte público de Brasília, sempre com foco na integração dos modais. A maior dificuldade que encontramos é exatamente a resistência do usuário em fazer uso de diferentes tipos de transporte ou mesmo em fazer baldeação. É uma questão cultural: o passageiro, às vezes, prefere esperar mais tempo por um ônibus que fazer a viagem mais rapidamente, utilizando a integração”, explica Damasceno.

Outra ação importante para melhoria do transporte público na capital federal é a expansão dos pontos para recarga e compra dos cartões. “É importante ter uma rede pulverizada de venda de créditos. No passado, o maior problema do transporte brasiliense era a forma indiscriminada com que era feita a administração do sistema: não havia gestão das linhas, não havia racionalização da operação”, enfatiza Damasceno.

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