CAMINHO DO LIXO

Global, Ed. 02

Startup Plataforma Verde permite monitorar a geraçãode resíduos desde o início até a destinação final

Pode-se pensar que o lixo é o fim de todo processo produtivo, a última etapa da logística de produção. Muito pelo contrário: na verdade, o descarte de resíduos é um processo que pode gerar recursos aos cofres públicos e benefícios às empresas capazes de faze essa gestão. Foi isso o que percebeu o CEO e fundador da Plataforma Verde, Chicko Sousa, e o que o motivou a criar a primeira plataforma em blockchain para gerenciar a cadeia do lixo nas cidades e nas empresas.

A Plataforma Verde foi estruturada em 2015 em função da necessidade das concessionárias de limpeza urbana de São Paulo de fazer uma controladoria em processos da coleta seletiva na cidade e nas plantas mecanizadas, que separam de forma automatizada os resíduos da coleta seletiva. “Quando começamos, percebemosque poderíamos digitalizar o processo de auditoria, controlando não só as notas fiscais, mas também as leis aplicadas na destinação dos resíduos nas plantas. Fizemos esse piloto durante o ano de 2015 e, depois desse período, percebemos que tínhamos uma gigantesca massa de dados”, conta Sousa. Na prática, empresas e cidades de todos os tamanhos ficam habilitadas a gerenciar seus resíduos sólidos, desde a geração até o destino final. Além de possibilitar o rastreamento, a plataforma inibe a criação de aterros irregulares, pontos de descartes viciados e destinos não licenciados, entre outras ocorrências.

Depois de estruturar o projeto para a prefeitura de São Paulo, em 2016, a startup foi procurada pela Renault do Brasil para incorporar um projeto similar, mas adaptado à dinâmica da montadora na gestão de resíduos. “Em janeiro de 2017 abrimos a empresa tendo como cliente a Renault, além da prefeitura de São Paulo”, diz o idealizador da Plataforma Verde.

No caso da prefeitura paulistana, a startup doou o sistema, o que se repetiu para os municípios do Estado com mais de 500 mil habitantes. “Apenas na cidade de São Paulo, a ferramenta vai começar a fiscalizar 347 mil empresas”.

A startup desenvolveu um modelo da ferramenta específica para captar os dados sobre resíduos gerados por pessoas físicas: o Limpa Rápido, aplicativo que funciona tanto em IOS como em Androide para fornecer informações sobre roteiros e horários das coletas de lixo na área do cidadão, pontos de entrega mais próximos e todas as informações relativas aos serviços urbanos disponibilizados pelas concessionárias.

Dificuldades digitais

Tinha uma pedra no meio do caminho para tornar a Plataforma Verde uma realidade para a administração pública: Sousa deu-se conta da falta de conhecimento técnico mínimo entre os prestadores da cadeia para utilizar a ferramenta. “Criamos, então, um aplicativo para esse transportador público, com leitura de QR Code para toda caixa com mais de 200 litros na coleta de lixo da cidade de São Paulo e definimos um tipo de adesivo. Fomos entendendo as dificuldades do setor e criando so luções, integrando os sistemas de informação à população com os sistemas de fiscalização da prefeitura”, conta.

O leitor de QR Code no aplicativo de celular, que pode ser usado por qualquer cidadão, serve também para fiscalizar as ações da prefeitura. O aplicativo permite saber quem é o proprietário das caçambas de resíduos, se deveriam estar nos locais e por quanto tempo. “É o poder da fiscalização disponibilizado à população, mas também às transportadoras, que podem definir modelos de eficiência com padrões de consistência a todos os envolvidos e fiscalização mais assertiva”, avalia Sousa.

Há dois anos, antes da implementação da Plataforma Verde, do volume de resíduos processados nas plantas mecanizadas administradas pelo município de São Paulo, apenas 30% eram destinados a empresas licenciadas. Hoje, esse volume está em 97%. “Além disso, o valor unitário médio de venda aumentou 47% por tonelada, porque a comercialização de resíduos licenciados elimina a cadeia de intermediários nas plantas mecanizadas”, conta.

A evolução é particularmente interessante para São Paulo, considerando- se que a cidade concentra 5,5% da população do Brasil e gera 10% do volume de lixo do País: são quase 20 mil toneladas geradas diariamente apenas no sistema público, uma vez que a prefeitura nunca teve acesso aos dados do sistema privado. “Pelo nosso estudo, há 347 mil companhias em São Paulo. Desse total, 150 mil deveriam contratar entes privados para coletar seus resíduos pela caracterização do volume, mas apenas 16 mil efetivamente se servem de empresas para coletar seu lixo – ou seja, o município acaba ficando com o custo de resíduos privados. Se isso acontece em São Paulo, deve acontecer em outras cidades País afora”, avalia Sousa.

Gestão do lixo

Outra versão da Plataforma Verde se destina às empresas, que devem informar de forma gratuita ao município o que está sendo feito com o resíduo que geram. “Existem empresas que não querem apenas informar o município sobre o que está fazendo; querem também ter acesso a gestão, relatórios e indicadores, bem como controlar automaticamente não somente as licenças municipais, mas as estaduais e as federais, além da cadeia de fornecimento, isto é, para onde o resíduo é enviado e quem faz o transporte, de modo a poderem certificar-se de que a empresa contratada de fato destina o resíduo como determina o contrato”, explica.

O aplicativo para empresas vincula o volume de resíduo com notas fiscais e manifestos de transporte. “Na versão utilizada internamente pelas empresas, existe a possibilidade de gerar os manifestos eletronicamente, com todos os dados transacionais travados em blockchain”, conta.

Segundo Sousa, “para um setor como o da infraestrutura, uma solução que traga transparência é muito bem-vinda, especialmente considerando os dados de poder legal – aqueles que, por determinação de lei, devem ser informados. No caso da solução para as empresas, apenas os dados privados são correlacionados entre os entes diretos, ou seja, o valor acertado entre o gerador do resíduo e o transportador só é visualizado por esses dois entes, e não pela cadeia”.

O idealizador da Plataforma Verde conta que, no início, considerava-se apenas a visão do gerador de resíduo. À medida que outras empresas da cadeia foram entrando – o que só acontece mediante convite, ao estilo de redes sociais, ou seja, somente quem tem a ver com o ecossistema pode fazer parte –, a plataforma passou a contar com companhias químicas, farmacêuticas, de transporte de resíduos, de aterros…

Hoje a plataforma tem 13 módulos de funcionamento adaptados às especificidades de cada indústria. Sousa explica: “Por exemplo,

temos clientes da indústria farmacêutica, para os quais a ferramenta avalia a geração de resíduos na linha de produção e também o controle do consumo de energia e água nos processos. No ano passado fizemos 580 novas funcionalidades e prevemos outras 700, sempre a partir de pedidos dos clientes, que percebem novas aplicações na gestão de dados”. As 700 funcionalidades às quais Sousa faz referência se direcionam à criação de novos indicadores para controles de consumo de energia, emissão de poluentes gasosos, novos tipos de relatórios de funcionalidade, performance e outros aspectos.

No caso da iniciativa privada, os benefícios da Plataforma Verde geram economias reais. “A Renault, por exemplo, declarou ter aumentado a eficiência na cadeia de gestão de resíduos em 300%, eliminando intermediários na venda de resíduos, além de terreduzido de quatro para apenas um o número de funcionários dedicados à operação de geração de resíduos:”, detalha Sousa.

Recentemente, a Plataforma Verde foi reconhecida pelo World Economic Forum como uma empresa de potencial tecnológico para gerar mudanças disruptivas em processos estabelecidos. “Ganhamos esse prêmio e também certa projeção internacional, com empresas utilizando a plataforma na Argentina e no Chile. Temos pedidos de ir para a Rússia, a Noruega, os Estados Uni dos, a França e Portugal, mas estamos estudando com muita cautela a questão da internacionalização porque precisamos ter estrutura para fazer isso tudo. Apenas agora demos abertura para conversas com fundos de investimentos, em função de clientes multinacionais que pediram a adoção do nosso sistema internacionalmente. Temos que ir com calma. Estamos aprendendo a escalar no Brasil”, finaliza Sousa.

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