Mulheres no comando

A presença feminina e sua inteligência emocional estão transformando as empresas do setor de transporte e logística, tradicionalmente dominado pelos homens

De acordo com estudo realizado pelo Instituto Ethos, a percentagem de mulheres em cargos de presidência continua abaixo de 7%, tanto em pesquisas nacionais quanto internacionais.

Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizado em 2018, apesar de representarem pouco mais da metade (51,7%) dos trabalhadores brasileiros, somente 37,8% delas estão em cargos gerenciais. Mesmo com a melhora nos últimos anos, uma mulher ainda recebia 76,5% do rendimento dos homens em 2016. Quatro anos antes, essa proporção era de 73,7%. Isso apesar de terem, na média, melhor formação: 16,9% delas têm ensino superior completo, ante 13,5% dos homens.

Nos setores de transporte e logística, as mulheres são minoria não apenas nos cargos de chefia. Atualmente, o segmento de transporte tem cerca de 2,2 milhões de profissionais, sendo 17% do sexo feminino. A maior parte das mulheres tem entre 30 e 39 anos e ensino médio completo, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho e Emprego (hoje Secretaria de Trabalho, ligada ao Ministério da Economia). O órgão não tem levantamento do percentual de motoristas mulheres no Brasil, mas elas ainda estão em menor número, de acordo com a Confederação Nacional do Transporte (CNT).

Os sistemas de trens e metrôs, por exemplo, possuem cerca de sete mil mulheres empregadas, sendo que, segundo a Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANPTrilhos), apenas 500 atuam como condutoras e maquinistas. No transporte aéreo, apenas 2,5% dos pilotos são mulheres, sendo que a participação feminina na cabine de comando dos aviões comerciais é de 2,7%, de acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

Com delicadeza e determinação, entretanto, as mulheres abrem seu espaço em mercados tradicionalmente dominados por homens. Nadir Moreno, presidente da UPS no Brasil há mais de dez anos, conta que atuou em todos os departamentos da companhia, em diversos países da América Latina, antes de assumir o cargo de chefia. “Tenho 26 anos de empresa e passei por muitas situações diferentes, incluindo preconceito, de forma direta ou mais sutil. Hoje, 40% do nosso staff é formado por mulheres”, afirma.

A UPS opera no setor de remessas expressas, no âmbito internacional e doméstico; desembaraço aduaneiro; logística, nos segmentos de armazenagem, distribuição e transporte; agenciamento de carga aérea e marítima; e seguros.

“No Brasil, existem problemas com a infraestrutura, e a logística é bastante complexa.

Tanto que os maiores custos das empresas estão ligados a operações logísticas”, conta a executiva.

Moreno observa que enfrentou alguns desafios ao longo da carreira, como a aquisição da Fritz Companies, em 1999, que consolidou a presença da empresa no transporte de cargas pesadas, que, somado ao volume de cargas de pacote (courier), a tornou a maior transportadora em volume do mundo. “Em 2001, com o ataque de 11 de setembro, tivemos que lidar com a ameaça de Antrax. Foi um período muito difícil, quando houve necessidade de demitir funcionários”, recorda.

A implementação de procedimentos “tropicalizados”, ou seja, a adaptação de serviços da UPS às condições brasileiras, em 2003, foi outro marco na sua carreira, assim como as negociações com o sindicato dos caminhoneiros da Argentina, em 2005, e a integração e consolidação das aquisições globais no Brasil, a partir de 2008. Em 2013, a executiva assumiu a vice-presidência da Lide Mulher e, no ano passado, a presidência da entidade.

“Também conseguimos expandir a nossa presença no Estado de São Paulo e hoje contamos com nove centros de distribuição”, relata.

Para a CEO da UPS Brasil, é importante que as mulheres entendam que podem chegar aonde querem. “Com determinação, a mulher consegue o seu espaço, apesar das dificuldades que ainda hoje persistem.

Temos nossa forma única de agir e trabalhar e precisamos valorizar nossa sensibilidade e nossos talentos”, afirma.

Iêda Maria Oliveira, gerente comercial da Eletra, fabricante nacional de ônibus movidos a energia limpa, conta que sempre trabalhou em áreas em que a presença masculina predominava.

“Houve um período em que trabalhei nos Correios. Era uma equipe com 140 homens.

Depois, comecei a atuar no setor de veículos pesados e já estava até habituada em ser uma das poucas mulheres presentes nas reuniões e mesmo no dia a dia das empresas.”

OLHAR FEMININO

Para Oliveira, a situação é desafiadora, pois ainda existe muito preconceito contra a presença do gênero feminino em determinados mercados e cargos. “É claro que existem barreiras, mas superá-las é ótimo, traz uma enorme gratificação. E tenho certeza de que nós mulheres contribuímos bastante para o aprimoramento da gestão. Trazemos um olhar diferente, mais humanizado, às empresas. E estamos na frente quando se fala em inteligência emocional”, acredita.

“Muitas vezes, no momento de lidar com algo desagradável ou fazer uma crítica mais contundente, as mulheres são chamadas, pois têm mais tato e conseguem falar coisas duras de forma mais amena”, observa.

A executiva afirma que é possível equilibrar a maternidade e a vida profissional. “Quando a mulher tem filhos, como eu, a situação se complica mais.

Algumas pessoas questionam se você vai ter a mesma disponibilidade para o trabalho, se os filhos não tiram a sua concentração, e sempre há muitas cobranças. Temos que usar o bom senso para lidar com diversas circunstâncias”, diz.

Ana Paula Cassorla, diretora da Pacaembu Autopeças, também ressalta as dificuldades em conciliar a vida profissional com a pessoal e familiar, mas acredita que o diferencial feminino é a predisposição para “se envolver e cuidar das pessoas”.

Na opinião de Cassorla, apesar das conquistas femininas no mercado de trabalho, ainda há um longo caminho a percorrer até chegarmos à igualdade de gêneros. “Temos um índice muito baixo de mulheres na presidência das empresas e nas posições de liderança. Entre essas mulheres, a maioria, cerca de 60%, declarou que elas se sentem discriminadas por serem mulheres.”

Com 26 anos de empresa, a executiva conta que, se a maioria enfrenta preconceito, no seu caso, a situação é ainda mais delicada. “Ser mulher e, ainda por cima, ser a filha do dono da empresa gera muita desconfiança. Principalmente em uma atividade predominantemente masculina”, garante.

A Pacaembu Autopeças chega aos 55 anos no mercado brasileiro com 30 filiais.

Maria Brito, gerente de engenharia veículo completo (Trucks) da Mercedes-Benz, empresa em que atua há 30 anos tanto no setor de ônibus quanto no de caminhões, lembra que, desde a adolescência, esteve presente em ambientes masculinos. “Estudei em uma escola técnica, a ETE Lauro Gomes. Quando fui procurar um estágio, não pude nem preencher a ficha porque a empresa não previa inscrições de meninas. Na área de exatas, principalmente na engenharia, as mulheres eram raras”, comenta.

A executiva participou do desenvolvimento do caminhão Accelo, da Mercedes-Benz.

Nesse período, morou em Portland, nos Estados Unidos.

“Éramos apenas três engenheiras, entre dezenas de homens.

Nos três anos que trabalhei na Alemanha, era a única mulher do grupo, e a única latina.” Ela acredita que a “alma feminina” é o combustível para uma boa gestão. “Falo aqui da essência feminina, independentemente de gênero ou orientação sexual”, completa.

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